A iconoclasta

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Mesmo que jamais fosse retrocede 
Ao apelo do que houvera de ter sido um dia. 
Cá dentro pediria por manhãs ensolaradas, 
Noites solitárias e tardes sorrateiras. 


Talhado para além das vastas secas, 
Esse menino moço de pés descalços. 
Servo do rei no reino daqueles versos, 
De todo meu esquio aos males de alabastro. 

A imagem penitente na tortura das pedras de rosário. 
Diz-me: Não tem comida e, não tem sorte. 
Interminável como o sertão de açucenas. .

Emoldurada no uníssono das agonias. 
Pobres sentidos que vezes enganam. 
E meus apegos? Estes partiram nem eu sei quando.  

- Ani Veloso ( Moço de pés descalços )

A tarde é levada junto ao anuviar de um céu cinza e contrito
E confabulo teus sorrisos para um outro alguém,
Tu apareces por de trás de minha sombra e beija-me o rosto.
O furor é meu peito, e o seu também.
A lua assiste estagnada em sua esplendorosa magnificência,
Os cristais de chuva cair sobre a janela.
E no precipício dos poetas me resta,
Descrever-te ao canto exaltado dessa celesta.
Minha amada o teu olhar reponta as manhãs.
Tua beleza de arrebol deixa-me tresloucado. 
Tu és o meu jardim inaudito, 
O encanto beato.
Seu sorriso é de um suave infindo.
Primoroso é o deleite de tua voz.
Tua verdade é um férreo,
Que a minha fleuma desaba.
O brilho assíduo de tua pele desnorteia-me,
Perturbando meus pensamentos ao mirar de teu semblante.
Vejo-te no lúgubre de teus poemas abrasados.
Quero-te, com o anelo de cada instante.
Sim, a quero. Você que inspira o coração do poeta, 
A tela do artista, a curva da musa e a nota mais aguda.
Deixe-me perder mais fundo nos enrolados de teus cachos,
Deixe que me perca nos teus versos. Morena.


- Ani Veloso ( Morena )

Soluço no lamento das lúcidas dolências sagradas,
Aos santos lírios extasiados e trêmulos.
Todo eu sou a cisma dos mudos pagãos,
Como em ti igual ao compor de um poeta.
Sobre as dispersas noites falecidas,
Nas cinzeladas nuvens fúnebres.
Tu prendes-se aos meus braços como renda de novena,
No veludo bendito das despedidas.
Nossas madrugadas são como o ritmo dos sinos.
Ah, pudera o amor mentir as volúpias,
Como mente as convulsões do teu rogado convento.  
E por fim rezo como um crente.
Em nome das orações sigilosas.
Adormecendo no túmulo dos martírios de aurora.

- Ani Veloso ( Crença de um poeta )  

Mais um poema.
Senti meu coração se apertar de novo e pressionei o papel já mais do que amassado e borrado de lágrimas contra o peito, como se pudesse transformar a celulose em tecido do meu ser, a tinta em sangue e fundir o objeto ao meu corpo, guardá-lo no meu coração como uma prova física da existência dela na minha vida. Para que a cada bombear ele espalhasse através das minhas veias as lembranças que me acometiam agora. Lembranças de nós duas juntas, coisas que eu julgava já ter esquecido há meses. Sorrisos que eu desejei, mas realmente nunca havia aprendido a odiar. Alegrias que revivi e desprezei com falsa repulsa, vezes sem fim.
Tudo aconteceu tão rápido. Um carro, música, vozes animadas tagarelando no interior do veículo, uma luz cegante vindo na nossa direção e de repente tudo escureceu com o barulho ensurdecedor dos pneus cantando enquanto o carro rodava pela pista e logo o som do metal se chocando se sobrepunha numa chuva de cacos de vidro por todos os lados. A sensação do meu corpo sendo jogado como uma bolinha de papel pelo vidro do automóvel era algo indescritível, tinha a impressão de que nenhum dos meus órgãos sairia inteiro tamanho havia sido o impacto contra a árvore. Ainda assim, eu não sentia dor alguma, na verdade eu não sentia absolutamente nada.

- Ani Veloso ( Coisas que eu conto por ai )

Fechei meus olhos e me deixei encaixar no abraço dela, cheia de saudade, apertando-a entre os braços com uma pressão gentil, na ânsia de afogar todos aqueles sentimentos que me atropelavam. Lucia se colocou na pontinha dos pés para passar os braços por cima dos meus ombros e me apertar também, enquanto deixava que meus braços envolvessem ainda melhor a sua cintura diminuta. Afundei o rosto nos cabelos dela e sorvi o cheirinho gostoso que vinha deles, sorri, isso não havia mudado.
― Ainda com isso de usar shampoo de criança? – afundei mais o rosto entre aqueles cabelos finos e apertei-a mais ainda contra mim, chegando a erguer um pouco seu corpo pequeno do chão.
Ouvi-a rir baixo enquanto meus lábios alcançavam a pele por baixo dos seus cabelos, beijando-a com carinho por toda a porção do seu pescoço que consegui descobrir, ela riu mais alto e se encolheu no abraço, larguei-a e corri os olhos pelo prédio em frente, onde ela disse morar. Creio que ela tenha entendido a mensagem, pois logo escapou do meu abraço, ajeitando os cabelos que eu havia bagunçado e pegando a latinha novamente em cima do muro enquanto me indicava a escada com um gesto de cabeça e já subia o primeiro degrau. Suspirei cansada, e ajeitei a mochila no ombro enquanto a seguia. 


- Ani Veloso ( Coisas que eu conto por ai )

E é por isso que hoje eu engasgo as silabas,
Cada letra é um sacrifício.
Um anzol na língua,
Meio copo de bebida
Que não é água María.
Finjo saber.
Nunca ganhei nada com isso.
Então, eu finjo.
Há noites, no limiar, 
Nos papéis do escritor
O coro contador
Dos lápis que existe
O vivente pensador.
E quem a mim guarda
A moça e seu amor?
María chorosa ler os versos
Pensando ela ser os certos
Acredita em traços os gestos,
Na verdade do poema
Em palavras com ardor. 

- Ani Veloso ( María, um zilhão delas 

O que pensam todos esses homens?
Como aceitam as foices como se fosse água?
Com sua fome, sua seca e suas marcas.
Sobre o sol do meio dia que dilacera,
São seus tormentos, são suas pragas.
O que pensa o velho homem?
Cansado, sobretudo das caminhadas.
Estável ao ponto mudo,
Cego, diminuto, congelado.
Faz o favor de morrer calado,
Nas oprimidas celas sem cores.  
E aos tão cedo como as manhãs nubladas.
Petrificado, pobre homem.
Que vive à custa de suas amadas.
Tratando-as a golpes de rosas facadas.
Banhado na febre de seus filhos.
Mas aos que vem vindo nas estradas de pouca jornada,
Acolhedor de cantos das vastas planadas.
Os troncos moços, sozinhos e o chão
Como ao vão que desperta as madrugadas.
Leve-me o coração, pois então, não conheço a farsa.
Que sem pensar,
Caímos no desespero das mamarias
De uma terra que sorrir
Sem saber de nada. 

- Ani Veloso (  O que pensam todos esses homens? )